Via Sacra (1) – A Mulher mais bonita do mundo

A brisa do mar que desliza na sua face seca as lágrimas que brotam dos seus olhos.
Nos cabelos, o sol que se reflete em desalinho tenta esconde-los dos olhares da multidão.
Ela caminha descalça pela praça, agrilhoada pela beleza que lhe marca o destino.
A multidão roga-lhe pragas de ignorância e medo. – “Foi a tua beleza que insultou os deuses” – ouve.

Ela sente o chicote de couro duro que lhe golpeia a frágil carne dos seios.
Eles sentem o odor do seu sangue que lhe desliza pelo corpo e desagua nas lajes da praça.

Ela diz adeus ao amor que já sentiu pelos homens, naquela escadaria que a desce da praça até ao mar.
Quantas vezes a subiu, com mantimentos dos barcos para o templo e com homens do amor para o espirito.

E é agora, tratada como um ser de tentação ao divino…
Aquela que agora é arrastada acorrentada pela escadaria que a leva até ao penedo sobranceiro ao oceano que a viu nascer.

Em todos estes anos como sacerdotiza do Templo do Amor, mostrou-lhes como o divino pode também ser partilhado em corpos.
Ensinou, paciente e diligentemente, que do corpo se faz amor – que se faz energia – a energia de que se faz o espirito.
Toques, murmurios, preces e respirações. Movimentos e sabores, ondulantes, sedutores.
Partilha de vibraçoes plenas em subtis sentires de quimica intima.
Viagens de descoberta em vales e planicies onde apenas o sentir sublime serve de guia.
E quando o momento surge, aquele ascender a um estado de energia pura que te leva em retorno a casa.

Quantos humanos, homens e mulheres, assim por ela foram ensinados na sublime arte da partilha do Amor?

Despem-na ao longo do caminho até ao oceano com pedradas e chicotadas.
Olham-na com desejo animal.
“Corpo de pecado! – Olha-te e envergonha-te, meretriz !”- Ouve.

E tudo, porque um dia um deus se apaixonou por ela e a quis só para si…
“Não. Eu pertenço ao ciclo de ascensão da humanidade! Eu sou o caminho pelo qual eles podem também experienciar a divindade! Não posso ser tua, nem de ninguém!” – respondeu-lhe.
“Então, se não fores minha, não serás de ninguém mais…” – Vociferou-lhe.
E coisas más começaram a acontecer àquela gente outrora feliz.
O deus não correspondido incitou à prática de um novo culto.
O culto da carne. O culto do poder da carne. O culto do poder do dinheiro sobre a carne. O culto do poder sobre o dinheiro.
E os corpos de carne vendiam-se, trocavam-se e não mais se partilhavam em energia subtil.
Tudo era baseado na troca do poder do ter. Do usar, do abusar.
Não no poder de se Ser.

Pouco a pouco o Templo do Amor foi perdendo a sua energia divina.
Era agora apenas uma igreja onde se vendia e comprava o poder da divindade.

Andrómeda recusava partilhar-se sem a energia do espirito divino.
Sem a mudança necessária aos sentires para se Ser.

E a um deus rejeitado juntaram-se então reis e rainhas, clérigos e políticos, banqueiros e proprietários. Agricultores e guerreiros.
Todos queriam o que não podiam ter.
A partilha do amor divino da mulher mais bela do planeta.
Simplesmente porque não a entendiam, não poderiam nunca tê-la, mesmo que a obrigassem vezes sem conta a prostituir-se em estado de corpos. Amarraram-na, usaram-na, violaram-na. Mas nada lhes poderia dar quem Ela É.

Porque Ela não era a beleza que eles viam.
Ela É a Luz que emite o estado de Ser-se
E enquanto era agrilhoada ao rochedo junto ao mar, esperando o sacrificio das bestas que a levariam consigo durante a noite, ela mumurou palavras doces de perdão para si própria, por ter esquecido que já amara os homens.

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